Sobre como minha filha e eu nos desmamamos: relato de desmame de uma mãe

Se alguém me perguntasse, dois meses atrás, se eu acreditava em um desmame natural para minha filha Maria, de 1a e 6m, que mamou em livre demanda até os 6 meses, nunca aceitou mamadeira, acordava todas as noites para mamar, e tratava o peito como uma entidade à parte (conversava com ele, beijava, dava boa noite), eu diria que não, jamais! Ao contrario, tinha certeza que seria um processo dolorido e traumático. Isso porque tendemos a achar que desmame natural é sinônimo de desmame gradativo. Não concordo. Acredito que o desmame natural é aquele que se adapta ao modo de ser e viver da dupla mamãe/bebê. Desmamar é um trabalho em equipe e que por isso varia de acordo com a personalidade e comportamento dos envolvidos. Não existe regra e nem fórmula absolutas. No nosso caso, a única coisa que foi gradativa foi a tomada de decisão do desmame. Foram quase dois meses processando a idéia, enchendo o copo de motivos até que ele transbordasse em atitude. Atitude essa, certeira e sem volta, e garanto, com muito menos sofrimento do que eu previa.

Mãe e filha - lindas
Marina e Maria (arquivo pessoal)

Desde que nossa Maria nasceu, nada nos fazia sentir mais em paz do que o momento da amamentação. Tínhamos a segurança de que naquele momento tudo estava bem. Se estava mamando estava saudável, protegida, quentinha. O tempo foi passando e Maria agarrando-se cada dia mais ao peito. Aos 18 meses, não queria saber de comer e acordava de 2 a 3 vezes na madrugada para mamar, o que estava deixando-nos exaustas. Estava claro que eu tinha que tomar uma atitude… por mais duro que fosse. A decisão estava tomada, restava saber como seria feito.

Durante meses, nos papos de parquinhos com pais, avós e babás, ouvi as mais inusitadas histórias de desmame. Mulheres que passaram as maiores esquisitices nos mamilos para fazer com que seus bebês rejeitassem os seios. Nada contra esse método, não julgo e sei de casos que conduziram a um desmame realmente tranquilo, apenas não me via nele. Jamais amargaria o gosto desse encontro tão potente que foi a nossa amamentação. No nosso caso, o diálogo foi o caminho.

Fomos passar uma temporada de férias em Campinas, onde moram meus pais e sogros. Um domingo, na casa de meus pais, recebemos um casal de amigos muito querido, que tem duas filhas, uma de 5 e outra de 2 anos. E eles começaram a nos contar experiências, desafios e estratégias de educação que haviam criado com as meninas. Maria dormia. Comecei a chorar copiosamente, pois naquele momento entendi que havia chegado a hora. Não adiantava mais tentar tirar as mamadas gradativamente, teria que ser de uma vez. O desmame gradativo não fluía de maneira natural comigo e com Maria. Ficávamos confusas: uma hora pode, depois não pode, e quando ela ficava doente todas as regras estabelecidas iam pelo ralo. Eu sofria quando dizia não, e que conduziram a um desmame realmente tranquilo, apenas não me via nele. Jamais amargaria o gosto desse encontro tão potente que foi a nossa amamentação. No nosso caso, o diálogo foi o caminho.

Fomos passar uma temporada de férias em Campinas, onde moram meus pais e sogros. Um domingo, na casa de meus pais, recebemos um casal de amigos muito querido, que tem duas filhas, uma de 5 e outra de 2 anos. E eles começaram a nos contar experiências, desafios e estratégias de educação que haviam criado com as meninas. Maria dormia. Comecei a chorar copiosamente, pois naquele momento entendi que havia chegado a hora. Não adiantava mais tentar tirar as mamadas gradativamente, teria que ser de uma vez. O desmame gradativo não fluía de maneira natural comigo e com Maria. Ficávamos confusas: uma hora pode, depois não pode, e quando ela ficava doente todas as regras estabelecidas iam pelo ralo. Eu sofria quando dizia não, e, quando enfim chegava a “hora autorizada” de mamar, era um alivio para as duas. Se por ventura eu cedia ao seu pedido de “tetê” fora de hora, me sentia culpada, impotente. Isso tudo foi um conjunto de fichas que desabou na minha cabeça durante as quase duas horas de conversa com esses amigos.

Maria continuava dormindo. E a decisão estava tomada. Não haveria uma última mamada para nos despedirmos. Quando amamentei Maria naquela tarde, jamais imaginei que seria a última! Eu não conseguia parar de chorar, num misto de dor e de certeza de que a hora havia chegado. Ela acordou e como sempre pediu “tetê”. Então me tranquei com ela no banheiro, me abaixei e disse: “Filha, olha nos olhos da mamãe.” Ela foi erguendo a cabecinha e com os olhos marejados ficou quietinha, a me ouvir. Entendeu pelo meu tom de voz que eu falaria algo sério. Respirei fundo e enfim, falei: “Maria, o tetê acabou”. Esse foi o momento de maior dor de nosso processo de desmame. Ela chorava um choro diferente, um choro que me parecia adulto, sem birra, sem desespero, um choro de dor mesmo, de tristeza: “Não mamãe, por favor, mamãe, não! Nenê quer tetê, mamãe dá, por favor”. Não pude me conter e comecei a chorar com ela. “Isso filha, pode chorar. Coloca sua dor para fora. A mamãe também esta triste, mas o que importa é que o tetê acabou, mas a mamãe esta aqui! A mamãe te ama. A mamãe vai continuar do seu lado sempre. Vamos passar por isso juntas e você pode chorar sempre que quiser. A mamãe também vai chorar bastante, tá?” E ficamos ali, abraçadas, chorando por uns 15 minutos.

Era fim de tarde, fomos para a casa da minha sogra, Maria jantou, brincou e tomou banho. Quando estava pronta para dormir, começou a pedir tetê. Novamente conversei com ela, expliquei, lembrei nosso choro do banheiro, e ela, obviamente chorou mais uma vez, muito! Então ofereci a mamadeira, ela resistiu como sempre, mas acabou pegando, tomou 100 ml de uma vez só. Depois seguiu pedindo Tetê. Respirei fundo, preparada para o que seria a noite mais difícil de nossas vidas (mas não foi!). Como seria, fazê-la dormir pela primeira vez sem o tetê? O mais importante de tudo, que fez com que a noite não fosse tão sofrida, foi ter permanecido ao lado dela 100% do tempo. O abismo que se abriu para ela quando eu disse que não tinha mais tetê, ficou muito menor porque ela teve minha presença, dando amor, segurança e conforto. E acima de tudo, permitindo que ela chorasse o quanto quisesse. Depois de muitas histórias e canções, Maria finalmente dormiu nos meus braços. Por volta de 3 da manhã, ela acordou pedindo tetê, e a essa altura eu já não conseguir mais dormir de tanta dor nos seios, que estavam cheios demais. Minha sogra tirou-a do berço e me trouxe na cama. Eu disse: “vou dar! Preciso esvaziar os seios. Amanhã recomeço”. O único argumento dela foi: “O quê???”. Bastou para me cair a ficha! Não tinha mais volta. Tinha que fazer valer minha palavra. Lembrei do choro no banheiro, e me mantive firme. Nas primeiras noites, amarrei uma faixa nos seios para dificultar o acesso. Quando ela se irritava por não encontrar o tetê, eu dizia: “coloca a mão no coração da mamãe, faz carinho. A Maria mora aqui dentro”. E ela se acalmava. Então, ofereci o “tetê ninho” (como ela carinhosamente batizou a mamadeira), ela recusou. Ofereci água e ela aceitou. Bebeu 100 ml de água e dormiu. Meu marido esteve o tempo todo com a gente, dando suporte, principalmente pra mim. Ele foi fundamental para me dar força e consolo, afinal, a mãe chora junto sim, e precisa extravasar essa dor. O desmame não é só do bebê, mas da dupla mamãe/bebê.

No dia seguinte, Maria acordou bem humorada como sempre, e como se nada tivesse acontecido na noite anterior. Pediu o tetê da manhã e eu novamente expliquei. Ela choramingou um pouco, mas para minha surpresa logo pediu tetê ninho e tomou 200 ml. Ela passou o dia super bem, eu é que ainda chorava, revezando-me entre ficar ao lado dela e passar horas no banho esvaziando os seios. Ao longo do dia, tentei evitar os lugares da casa onde costumava amamentar, e procurava sempre ter por perto um alimento ou bebida que ela gostasse muito, como, por exemplo, damasco e água de coco. A noite ela já saiu do banho pedindo o tetê ninho. Tomou tudo e dormiu no meu colo. Pela primeira vez, em 1a e 6m, Maria dormiu 8 horas seguidas. E acordou mais uma vez super bem humorada. Neste terceiro dia eu ainda sentia muita dor no peito (no sentido físico e figurado!) mas já não chorava tanto. Maria em compensação, já parecia estar totalmente adaptada a nova vida sem tetê. Quando olhei minha filha no berço naquela manhã, lembrei do pensamento de Darwin que diz que na história da humanidade os que sobreviveram não foram os mais inteligentes e sim os mais aptos à adaptação. E como é lindo e encorajador ver seu filho adaptar-se a uma nova fase, motivado por um “não” seu. Isso nos dá confiança para tomar decisões que nem sempre deixarão nossos filhos felizes de imediato, mas que certamente darão forças para que eles criem e conquistem sua própria felicidade depois. Não podemos ter medo de contrariar ou frustrar nossos filhos, essa talvez seja a chave mais preciosa do crescimento deles.

Hoje, dois meses depois, Maria não pede mais o “tetê”, mas não passa um dia sequer sem colocar a mãozinha dentro da minha blusa dizendo: “Tetê acabou”. E conseguimos nos divertir com isso. Nosso desmame foi, para meu marido e para mim, uma grande lição à respeito da nossa capacidade de educar, respeitando os limites de nossa filha, com firmeza e amor. Com o desmame, Maria passou a alimentar-se bem, dormir a noite inteira, ficou mais auto confiante, se relaciona melhor com as pessoas, passou a respeitar mais meus momentos de alimentar-me, tomar banho e ir ao banheiro. E somos cada dia mais parceiras, encontramos novas formas de dizer que nos amamos. Em momento algum tive medo de fragilizar meu vinculo com minha filha. Pelo contrário, enquanto todos me diziam que, para desmamar, eu deveria sair de perto, deixar o pai assumir na madrugada, ficar fora nos horários das mamadas; alguma coisa no meu coração dizia que não era esse o caminho, que a minha intimidade com ela e a nossa potência de ação enquanto dupla, teria que ser ainda mais convocada nesse momento. Ela tinha que ter a certeza de que perderia apenas o peito, mas não a mãe. Que o amor, o carinho e nosso vinculo só aumentariam.

Não existe idade nem duração certas para o desmame acontecer. O importante é que seja natural e isso pode significar dois meses para uns ou dois dias para outros. Pode ser aos seis meses para uns ou aos três anos para outros. A dor vai existir, mas como nos lembra Drummond, o sofrimento pode ser opcional. Lembre-se o desmame é “só” mais um encerramento/abertura de um novo ciclo na sua relação com seu filho, assim como foi o parto, como será o fim do colo, o desfralde, a formatura, a saída de casa…

Desejo serenidade e sabedoria para as duplas de mamães/bebês que estão prestes a fazer o seu desmame, que cada mãe saiba conduzir o seu processo, mas também deixar-se conduzir pelo tempo de seu bebê, lembrando que por mais que você leia relatos ou escute a experiência do outro, a sua será única! Estamos falando de filhos, de vida, de subjetividades, portanto não existem fórmulas e nem certezas, existem sim, tantas regras quantos bebês e mamães existirem no mundo!

Sou Marina Elias, mãe de Maria, 34 anos

Atriz e Professora do Departamento de Arte Corporal da UFRJ


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