A fala da criança não é prejudicada pela amamentação

Vamos conhecer alguns mitos e verdades sobre a fala da criança com a fonoaudióloga Juliana Trentini, do canal Fala Fono, do Youtube.

Na tentativa de justificar possíveis atrasos na fala da criança, não faltam palpites recheados de explicações nada científicas. E uma das justificativas mais frequentes que as pessoas dão para bebês que não começam a falar é dizer que, se ainda estiverem sendo amamentados, que mamar no peito atrapalha a fala da criança. Mas, afinal, isso é mito ou verdade?

“Não. Diferentemente da mamadeira e copos de transição, que podem alterar os padrões de movimentação dos músculos da fala, diminuir o tônus e ainda causar alterações funcionais, como respiração oral e alterações estruturais como mordida aberta, a amamentação em nada altera a fala.

Amamentar não é só fisiológico. Existem outras camadas envolvidas que, às vezes, não sempre, nos dão pistas de que algo não está equilibrado, como, por exemplo, quando a criança tem dificuldade de se relacionar com a mãe de forma mais madura porque sempre que ela senta para terem um momento, a criança só quer mamar. Isso atrapalha o progresso da relação, da comunicação e da brincadeira inclusive. O problema da fala da criança é a amamentação? Não! A raiz está no relacionamento.

A amamentação à toda oportunidade que impede um amadurecimento do relacionamento é um sintoma de como está a dinâmica e não a causa. Um outro exemplo é quando o bebê ou a criança maiorzinha mama tantas vezes quanto ou mais que um recém-nascido.

Isso pode também ser um sintoma de um desequilíbrio na dinâmica. A causa é a amamentação? Novamente não! Mas isto pode ser um sintoma”, pontua Juliana. Ela comenta, ainda, que, dentro da fonoaudiologia, não consegue enxergar motivos para pintar a amamentação como vilã.

“O que entendo como importante é que a pessoa reflita sobre a relação com o bebê, ajudando a encontrar formas de amadurecer a relação e reequilibrar a dinâmica e elaborar sentimentos de medo e insegurança. Muitas dessas vezes, inclusive, a forma que isso é feito é encaminhando para a psicoterapia”, complementa.

Outra justificativa comumente usada por quem está ansioso para que o bebê comece a falar é dizer que a criança tem preguiça de falar. Isso não é verdade. Um bebê que tem espaço e é incluído na família como falante sabe da importância da comunicação. Ele pode ter dificuldade de falar, mas se ele entendeu a dinâmica da linguagem e as possibilidades que ela traz, ainda que de forma rudimentar, acaba entendendo que comunicação é poder.

“Falar nos permite conseguir o que queremos, falar faz parte da brincadeira e o mais importante: falar, fundamentalmente, nos permite expressar e ser compreendidos. E estas são necessidades humanas universais. Existe a chance da criança ter não ter entendido para que serve a fala, dela não se ver como participante da cultura falante, não entender o que os outros estão falando, e não ter o desejo de se fazer entender. E isso só acontece por dificuldade real ou negligência, ou seja, isso mina a chance de ser preguiça.

Existem dificuldades reais, existem atrasos no desenvolvimento e existem transtornos variados que dificultam o desenvolvimento da fala e da linguagem e isto jamais pode ser classificado como preguiça. É nossa responsabilidade interagir com a criança e lhe convidar para o universo da linguagem, tentar com que ela nos entenda e tentar entendê-la. Acolher suas expressões e responder com entusiasmo”, diz Juliana.

Outro mito que é meninos demoram mais para falar do que meninas. Isto simplesmente não procede, não existem diferenças significantes neste sentido. “Se fosse verdade, existiriam duas tabelas de marcos do desenvolvimento, a tabela dos meninos e a tabela das meninas, assim como existem dois gráficos de crescimento separados. Mas não existem duas tabelas.

O que existe é um risco maior dentro das crianças do sexo masculino de apresentarem dificuldades ou transtornos que envolvam a fala e a linguagem, mas isto de nenhuma forma justifica que façamos “vistas grossas” quando um menino apresenta um atraso. Pelo contrário, estatisticamente temos mais motivos para buscar ajuda”, esclarece.

Mas e a chupeta? É verdade ou não que ela pode atrapalhar o desenvolvimento da fala das crianças? Do ponto de vista da fonoaudiologia, além de causar problemas musculares e estruturais, a chupeta pode funcionar como um botão de mudo. Isso acontece com alguma frequência e deve ser evitado. “O item não deve ser usado para calar um choro, por exemplo.

A nossa função é acolher os sentimentos dos nossos filhos, validá-los e ensiná-los por meio de exemplos acolhimento e palavras. Um pai ou uma mãe coloca a chupeta numa criança quando ela está impaciente, entediada ou triste e acaba não deixando que seus pequenos lidem com os próprios sentimentos, engolindo as palavras, com a boca tampada pela chupeta. Esse acessório tem a facilidade de calar as expressões de sentimentos dos bebês e podem roubar o direito de expressão, impedindo seu posicionamento como falante”, conclui.

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